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Quem vai a Juazeiro do Norte alimentar sua devoção ao Padre Cícero não pode deixar de levar, como lembrança da cidade, uma imagem, um terço, fitinhas coloridas. Mas a referência ao local não se resume à fé católica. A cidade é a única a produzir, no Brasil, sandálias recicladas de PVC. É só uma fábrica que faz isso, mas a indústria produz 330 mil pares por mês, vende para todo o Brasil e evita que o material, que passa até 100 anos para se decompor, acumule-se em lixões, aterros sanitários e se transforme em problema ambiental.
Por mês, a PVC Indústria e Comércio de Plástico adquire cerca de 120 toneladas de matéria-prima do Norte e Nordeste. Esse tipo de reciclagem é feito pela empresa desde 1998. Na época, eram apenas oito funcionários. De início, o material reciclado era adquirido apenas no Ceará, mas o aumento da demanda exigiu outros fornecedores. Não raramente, parte da matéria-prima que chega à empresa é a própria sandália. Atualmente são fabricadas, por dia, 15 mil a 17 mil sandálias.
São 35 modelos. De acordo com o diretor da fábrica, Wanderson Sampaio Gonçalves, a aceitação do produto sempre foi boa, em especial pelo público de baixa renda. Um dos fatores, na opinião do diretor, deve-se ao valor da sandália que, nas lojas do Cariri, custa R$ 4,99 em média. A durabilidade, em geral, é de 45 dias, quando a sandália é usada diariamente. Modelos similares duram, em média, 30 dias. Mas, segundo Wanderson Sampaio, a sandália reciclada de PVC ser usada por até 60 dias. Na opinião dele, o trabalho de reciclagem é uma maneira de preservar a natureza. Isso porque, ao invés de as próprias sandálias e outros produtos de PVC irem para aterros sanitários e lixões, são reciclados e retornam para o mercado. "Muita gente não abre mão do desenvolvimento e, para isso, agride o meio ambiente".
Segundo o diretor, a fábrica gera, hoje, 180 empregos diretos e cerca de 600 indiretos, entre vendedores, catadores de material reciclável e trabalhadores de depósitos de reciclagem. Como Wanderson explica, o material não é recolhido diretamente dos catadores.
Eles selecionam o que pode ser reaproveitado e vendem o material aos depósitos. Esses, por sua vez, repassam o PVC para a fábrica. Dessa forma, são gerados empregos em vários contextos, tanto formais como informais. "É uma forma de manter os traços culturais do Cariri, beneficiar a natureza e gerar emprego e renda para comunidades locais", frisa o proprietário da fábrica, Glaidston Gonçalves de Lucena.
A reciclagem do PVC ganhou incremento e se voltou para a devoção do romeiro que visita Juazeiro do Norte. No local, são fabricadas imagens do Padre Cícero com 30 centímetros e feitas de PVC. Não é um material reciclado, porque após passar pelo processo de reaproveitamento, ele fica preto. Contudo, trata-se de uma imagem mais resistente do que as de gesso e de madeira e lavável, sendo que mais cara.
A unidade tem 22 mil metros quadrados de área total e 13 mil de construída. O modelo mais popular é a sandália Macarena. Segundo dados da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), hoje, 90% da fabricação de calçados em Juazeiro do Norte correspondem às chinelas de dedo. O índice faz do Ceará o terceiro maior fabricante de calçados do País.
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